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ProdLive 01 - Relações de trabalho em tempo de pandemia

Atualizado: 9 de jul. de 2020

A primeira ProdLive foi um sucesso de audiência do GEP, superando marcas estimadas para o evento, e tudo isso, graças a vocês, que assistiram, acompanharam e principalmente participaram da criação desse projeto, por isso, o nosso muito obrigado a todos que estiveram conosco, e aos que não estiveram, que acompanhem as próximas!


As nossas convidadas da primeira ProdLive, foram as docentes do Departamento de Engenharia de Produção da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais; Ana Valéria Carneiro Dias e Maria Cecília Pereira, um pouco mais sobre elas a seguir:

Maria Cecília Pereira, docente do Departamento de Engenharia de Produção da UFMG, tem PhD em Administração (UFLA), além de ser co-coordenadora no Laboratório de Gestão de Trabalho e Competências (GT&C). Ela costuma atuar nas áreas de inovação, aprendizagem organizacional e desenvolvimento de competências e relações de trabalho.


Ana Valéria Carneiro Dias também é professora no Departamento de Engenharia de Produção da UFMG e co-cordenadora do GT&C, além do doutorado em Engenharia de Produção pela USP. Ela costuma atuar em áreas de organização do trabalho, gestão da inovação, organização para a produção e financeirização do produto.


Tivemos uma discussão sobre "Relações de Trabalho em tempos de pandemia". Conversamos sobre as mudanças na Organização do Trabalho, a centralidade do trabalho para a sociedade e para o indivíduo, uberização, home office e muito mais, tudo sob o contexto da pandemia.


Você pode assistir à ProdLive #01 abaixo:




Ao longo da primeira ProdLive, foram realizadas diversas perguntas, e algumas não puderam ser respondidas por limitações de tempo. Portanto, buscamos as professoras para sanar as dúvidas que surgiram. A seguir, você vai acompanhar um compilado de perguntas e respostas que surgiram na live, e foram respondidas pela Ana Valéria e Maria Cecília, com a réplica de suas respostas assim como nos foram informadas.


 

1. Como vocês vêem possibilidades de sair dessa uberização precarizada dado que hoje, como clientes, precisamos e estamos acostumados com esse tipo de serviço e que vínculos empregatícios deixam a operação dessas empresas, como Uber/Rappi, muito cara e praticamente impossível de crescer na velocidade que eles crescem?


Ana Valéria: É interessante perceber que essa pergunta tem duas partes, e acredito que a resposta esteja justamente em questionar os pressupostos de cada parte. A possibilidade de sair da “uberização precarizada” passa necessariamente, a meu ver, por questionar, de um lado como clientes, a real necessidade desse tipo de serviço (precisamos OU estamos acostumados?), e de outro lado como engenheiros de produção E como cidadãos se: 1º. Queremos que essas empresas “cresçam” na velocidade que crescem – dadas as implicações desse crescimento rápido (qual a vantagem dessas empresas crescerem rápido? Quem ganha com isso? E o que ganham realmente? E quem perde, e o que perde?); 2º. Qual é o real valor do serviço prestado e o real valor que queremos dar à força de trabalho.

Note que assumir que os “vínculos empregatícios deixam a operação muito cara” coloca imediatamente a questão: o que é “muito cara”? Muito cara para quem? Se dermos valor à vida e, portanto, ao trabalho dos seres humanos que prestam esse serviço, o vínculo empregatício continuará a ser MUITO caro? Ou a vida deles vale mais? (uma excelente reflexão sobre isso foi proposta pelo Gregório Duvivier no episódio sobre “trabalho doméstico” no programa Greg News – quanto vale o trabalho doméstico?).

Quero dizer que essa pergunta tem uma série de pressupostos que precisam ser questionados. No limite, é claro que isso significa questionar como o capitalismo se estrutura e funciona nos dias atuais.

Na minha análise, o modelo de negócio dessas empresas, no capitalismo como é agora, pressupõe essa precarização do trabalho (e elementos de financeirização, mas isso seria uma discussão à parte). Logo, não é possível eliminar a precarização se quisermos continuar com esses modelos (e o verbo é esse mesmo: querer. Cabe a nós escolhermos que mundo queremos e assumir responsabilidades sobre isso).

Pessoalmente, como falei na live, estou plenamente convencida (a partir de leituras de muitos autores, alguns que citei e outros não) de que o capitalismo não é mais capaz de responder às demandas da humanidade, se quisermos continuar a viver com dignidade.

Há algumas tentativas de construir “novas economias” – na UFMG, o grupo do prof. Francisco Lima (DEP) está trabalhando com o conceito de Economia da Funcionalidade e Cooperação, proposto pelos profs. Christian du Tertre e François Hubault; o professor Roberto Monte Mor, do CEDEPLAR/FACE, também está trabalhando com novas economias. Há toda a discussão de Economia Solidária, que tem avançado muito ultimamente. Há o questionamento, inclusive, do conceito de “desenvolvimento econômico” (por exemplo, faz sentido medir desenvolvimento econômico e social pelo crescimento do PIB? “crescimento” em geral é um aspecto desejável? É sustentável? Vide meu questionamento acima sobre o que significa, hoje, “crescimento rápido” das empresas da Nova Economia). Há várias possibilidades no horizonte, mas para construí-las o primeiro passo é questionar “verdades estabelecidas” e ver se realmente são “verdades” sustentáveis.

Maria Cecília: Dizer que as empresas não crescem porque as leis trabalhistas impedem é nivelar as condições de crescimento tanto econômicas, quanto sociais, por baixo. Pensando assim, estamos pensando nas pessoas trabalhadoras, ou seja, nas competências, como custos e não como investimentos. Existem diversos estudos que demonstram, estrategicamente que organizações que investem em pessoas conseguem diferenciar seu serviço, produto e processo no mercado. Nivelando apenas por custo, criaremos uma economia de produtos e serviços ruins, às custas das condições precárias dos trabalhadores. Duas formas de sair da uberizacao: 

  • Sair da lógica utilitarista da economia, repensar a economia, o uso das coisas, a necessidade de consumo;

  • Priorizar a competência como investimento nas organizações.


 

2. Ficou evidente que o setor de serviços terá que se reinventar devido a tudo que estamos vivendo. Como vocês observam a influência da pandemia no setor de manufatura? Teremos mudanças além dos EPI's?


Ana Valéria: Como dissemos na live, tudo depende de que mundo queremos. Tudo pode continuar como está, apenas com a adoção de novos EPIs. Ou podemos aproveitar a oportunidade para repensar aspectos com maior profundidade. Para além do questionamento do modo de funcionamento do capitalismo (vide minha resposta à pergunta 1), acredito que seria muito proveitoso se as empresas percebessem as possibilidades e os limites trazidos pelos processos de reconversão industrial e se reorganizassem nessa direção. Claramente isso implica voltar à discussão sobre flexibilidade, que era importante nos anos 1980 fora do Brasil e a partir dos anos 1990 no Brasil (não por acaso: épocas de mudanças tecnológicas e crise econômica também). Não se trata apenas de flexibilidade de mix de produtos, que as técnicas do Modelo Japonês trataram, mas muito além, flexibilidade de mudança total do produto e flexibilidade para lidar com imprevistos, que certamente estão muito mais ligadas à inovação e à construção de competências. E nesse aspecto, o abandono da visão de curto prazo (inclusive redução de custo de curto prazo, que é prioridade dos modelos tipo lean) é necessário; é importante investir no curto prazo para alcançar competências pensando no longo prazo, para lidar com os imprevistos que irão acontecer (criando novos produtos, reconfigurando os processos, ou mesmo modelos de negócios). No meu entendimento essa crise deixa à mostra a importância do investimento em competências em sentido profundo (vide disciplina da prof. Maria Cecília...). Cabe às empresas refletirem e perceberem isso, para além do que as consultorias de ocasião irão tentar vender a elas como “a” solução para os próximos imprevistos.

Embora não esteja diretamente no escopo da pergunta, é muito importante lembrar que outro elemento importante para o enfrentamento de situações como esta, da pandemia, é o papel do Estado.(no caso, disponibilizando crédito para capital de giro no curto prazo e investimento em competências e inovação no longo prazo). Sugiro os trabalhos dos professores de Economia a esse respeito (sobre inovação, em especial, os trabalhos da prof. Mariana Mazzucato, da Universidade de Sussex).


 

3. Como pensar em uma cenário com condições favoráveis aos trabalhadores, em um sistema político/econômico que tem como sua base a exploração e opressão da classe trabalhadora?


Ana Valéria: Realmente, se entendemos que o sistema tem como base a exploração e opressão, não haverá um cenário favorável aos trabalhadores. Nesse sentido, como disse nas respostas anteriores, acredito (no que sou acompanhada por um número cada vez maior de pesquisadores e analistas) que seja extremamente necessário repensar o sistema capitalista, encarar seus limites, propor “novas economias”. Remeto à resposta da pergunta 1 para professores da UFMG que estão trabalhando nessas novas perspectivas. Precisamos de estudantes interessados nessas perspectivas, nos procurem (e a eles) para iniciação científica, mestrado, etc.


 

4. Como isso afeta a sociedade e os indivíduos nos próximos meses e anos? Existem formas, seja por políticas públicas ou pelas próprias organizações para reduzir o dano provocado pela crise?


Ana Valéria: Penso que as respostas anteriores contemplam, em parte, essa pergunta. Porém, preciso mencionar que talvez o objetivo de “redução de dano” não seja o melhor objetivo. No meu entendimento, pensar assim só adia o problema, que é a crise do nosso modo de vida capitalista – crise do “capitaloceno” (muitos falam em crise do antropoceno, mas o que está em crise é o mundo submetido ao modo de vida predominante que é capitalista; há outros modos de vida humanos que dificilmente afetam o mundo e o levam a essa crise ecológica que estamos vivendo). Nesse sentido, é preciso articular as soluções nos vários níveis que essa pergunta menciona: no nível do indivíduo e no nível do conjunto de indivíduos e de suas relações (micro – organizações; macro – sociedade); e com a participação de instituições as mais diversas, das quais o Estado é sem dúvida um exemplo importantíssimo (políticas públicas serão cada vez mais fundamentais). No curto prazo, a “redução de dano” que vejo vem prioritariamente do Estado (políticas públicas de redistribuição de renda, via mudanças tributárias e políticas de renda básica de cidadania; políticas de crédito para as empresas, sobretudo MPEs). No longo prazo, mudanças bem mais profundas nesses vários aspectos que mencionei acima e nas respostas anteriores.

Maria Cecília: Depende de como as pessoas pensarem sobre isso. 

  • Se as pessoas pensarem dentro da mesma lógica sócio-político-econômica em que vivemos, às consequências serão de intensidade dos fatores. Exemplo: Vou economizar agora para sobrar para quando tudo se normalizar; As aulas virtuais devem substituir as presenciais para tudo continuar depois de onde parou; quando tudo acabar, vamos lotar as academias; vou aproveitar ao máximo o tempo para trabalhar e produzir; etc, etc;

  • Se pensarmos sobre o que está acontecendo como uma oportunidade para REPENSAR nossos paradigmas na sociedade: Precisamos de tantas lojas?? Se elas fecharem as pessoas vão desaparecer??? Ou vão fazer outras coisas?? Precisamos de tantos produtos?? Os custos são mais importantes do que pessoas inteligentes na minha empresa (caso respiradores fiat; caso dos centros de vacina...); É POSSIVEL UMA NACAO EXISTIR, DE FORMA SEGURA E NOBRE, SEM ESTADO??? A saúde deve ser preventiva... O Sistema educacional funciona em função da aprendizagem ou em função do mercado? Dessa forma, podemos e devemos pensar sobre as consequências dessa pandemia, como vamos levar essa lição para nossa vida. Como isso pode afetar até as relações sociais e culturais. 


 

Por fim, gostaríamos de agradecer a todos que acompanharam. Fiquem conosco nas próximas e façam comentários para que possamos sempre melhorar a Prod Live.

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